quinta-feira, 12 de julho de 2018

O que é uma brolita?


Crônicas do Mestre Sade

Lolita é um estilo de moda surgido no Japão no final dos anos 1980 inspirado na cultura kawaii (fofa ou adorável) e na nostalgia de outros tempos, seja o período vitoriano, rococó ou na infância. Entre os vários sub-estilos estão as sweet Lolita (doce Lolita) que remete à infância e usa preferencialmente cores em tons de rosa e pastel, com estampas de doces e animais. Brolitas são homens que se vestem de Lolitas.
Essas categorias, embora à primeira vista não tenham relação direta com o BDSM, podem ser perfeitamente encaixadas e usadas no contexto. Assim, as sweet lolitas lembram muito as littles do age play, com suas roupas e motivos inspirados na infância.
As brolitas, por outro lado, remetem não só ao age, mas também à sissies, já que se trata de homens vestidos de mulheres. Se encaixados dentro do estilo sweet, oferecem uma bela estética que lembra muito os desenhos que no meio ficaram conhecidos como prissy, com doces meninos submissos sendo feminizados e transformados em meninas envergonhadas. As roupas infantis e o excesso de enfeites e babados ajudam a desenvolver a feminilidade e lembram aos submissos que eles não são mais machinhos, mas mocinhas. Além disso, a própria quantidade de roupas, maquiagem e acessórios aumentam o tempo de montagem, fixando na mente dos submissos o fato de que estão de fato passando por uma transformação.
E o resultado, claro, é bonito de se ver. (MestreSade)

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Modificações corporais



Crônicas do Mestre Sade

Dentro do BDSM há algumas práticas que provocam modificações corporais definitivas. São práticas extremas, resultado de muita negociação e geralmente advindas de uma relação duradoura entre top e botton.
Uma das mais famosas modificações é o branding. Ela aparece no filme A história de O e consiste em marcar com ferro quente a pele da escrava ou do escravo, geralmente com o nome do proprietário. A simbologia histórica é óbvia, uma vez que na antiguidade era comum os ricos marcarem seus escravos dessa forma.
Uma forma mais branda é o top escrever seu nome com caneta ou lápis na pele do escravo, friccionando a pele até conseguir um efeito de relevo. Ao contrário do branding com ferro quente, que marca definitivamente e traz sérios problemas de cicatrização, essa forma de marcar o escravo ou escrava é mais branda e pode desaparecer com o tempo.
Outra opção é a tatuagem. É comum que bottons façam uma tatuagem que represente sua situação de submissão e entrega, muitas vezes com o nome do proprietário/proprietária. Algemas, por exemplo, podem ser usadas nessa simbologia, assim como cordas.
A escarificação consiste em marcar a pele através de instrumento cortante. O resultado é uma ferida em alto relevo. É uma técnica equivalente à tatuagem e muito usada em países da África como adorno. No BDSM pode ser usada como forma de marcar o botton.
Os piercings também são usados no BDSM. Sua função pode ser tanto estética, para adequar a peça ao gosto do proprietário, quanto funcional: quando colocados em região genital, eles podem ser usados para auxiliar a castidade, em conjunto com outros intrumentos, como o cinto de castidade ou cadeados.
Há modificações químicas. Exemplo disso são as dominadoras que não querem que seus escravos tenha ereção. Depois de algum tempo administrando remédios, as ereções se tornam raras ou até impossíveis, em alguns casos definitivamente.
Finalmente, o cinto de castidade pode ser usado para diminuir o tamanho do pênis do escravo. Isso é resultado de um processo longo. A dominadora inicia trancando o escravo em um cinto de castidade normal, que apenas impede a ereção. Quando este se acostuma com o primeiro cinto, é introduzido um novo, que comprime o pênis, que é trocado por um menor, sucessivamente até alcançar o tamanho desejado. Os menores cintos têm tamanhos em média de cinco centímetros. Talvez esse método não chegue ao extremo de diminuir tanto o pênis, mas o aprisionamento provoca indubitavelmente redução. Um submisso conhecido, que está no meio do processo, me relatou uma diminuição de pelo menos três centímetros no tamanho do pênis.
O objetivo da redução é principalmente simbólico: como socialmente o pênis é visto como símbolo de poder, a redução do mesmo representa a entrega desse poder nas mãos da dominadora ou do dominador. O mesmo ocorre com a castração química: ao se tornar incapaz de ter uma ereção, o submisso está renunciando ao principal símbolo de sua masculinidade.
Seja qual for a modificação corporal, ela deve ser muito bem negociada, pensada e, preferencialmente, acompanhada por um profissional qualificado. (MestreSade)

Inversão de papéis



Crônicas do Mestre Sade
Inversão de papéis é a prática em que a mulher penetra o homem. A expressão se refere ao fato de que a mulher ocupa o papel do homem como ativa na relação.
A inversão de papéis é uma das práticas mais comuns nas relações que envolvem dominadoras e submissos. Há todo um aspecto de humilhação e submissão ao fazer o homem sentir prazer anal. Nas relações BDSM é comum que a inversão seja associada ao uso de cinto de castidade, como forma de negar ao submisso o prazer peniano, fazendo-o sentir apenas o prazer anal.
Esse jogo com a sexualidade do submisso, negando-lhe a fonte de prazer com a qual ele está acostumado e estimulando- a sentir prazer de outra forma é um dos principais atrativos da inversão.
Além disso, claro,  há um forte fator de humilhação. O sexo anal sempre esteve relacionado à inferioridade. No Império Romano relações entre dois homens eram comuns e até bem vistas pela sociedade, em especial entre nobres e escravos, mas o nobre jamais poderia ser passivo, da mesma forma que o escravo jamais poderia ser ativo. Há, historicamente, uma forte associação entre a penetração anal e o poder. Assim, quando penetra o escravo, a dominadora reafirma sua superioridade.
A inversão pode ser feita com dedos ou consolo introduzido com a ajuda das mãos. Mas é mais comum o uso de cinta. Atrelada ao corpo da dominadora, a cinta permite que ela coma o escravo como se fosse um homem. Existem também  próteses especiais que são introduzidas na vagina e se fixam lá, de forma que o consolo parece uma extensão do corpo da mulher. Muitos desses assessórios têm vibradores, que ajudam a mulher a chegar ao orgasmo, mas a maioria não precisa. Conheço diversas dominadoras que conseguem chegar facilmente ao orgasmo apenas através da penetração do escravo, tão grande é o estímulo psicológico trazido pela inversão. Algumas que conheci conseguiam chegar ao orgasmo muito mais facilmente assim do que com a estimulação clitoriana, por exemplo.
Há, no entanto, todo um debate sobre a expressão inversão de papéis. Algumas dominadoras consideram o termo machista ao sugerir que a penetração, e portanto, o poder a ela associado é um atributo unicamente masculino – então, a mulher, ao penetrar, estaria fazendo uma inversão dessa ordem de poder.
Em inglês a expressão é “Pegging”, do substantivo peg, pino ou estaca – ou seja, faz associação com o fato da mulher usar uma assessório para penetrar.
Polêmicas à parte, a inversão, o pegging, é uma das práticas mais comuns e mais apreciadas por dominadoras e seus servos. (MestreSade)

domingo, 8 de julho de 2018

Crepax, o desenhista do BDSM



Crônicas do Mestre Sade

Guido Crepax foi o autor responsável por transformar o quadrinho erótico em arte. Seu estilo cinematográfico, com cortes rápidos e closes foram revolucionários. Além disso, nunca antes um desenhista havia utilizado a roupa como elemento erótico de forma tão efetiva. A lingiere nunca foi tão sensual quanto nas histórias de Crepax.

Seu primeiro personagem foi um super-herói com poderes mentais chamado Neutron, surgido em 1965, na revista Linus (uma homenagem a série Peanuts), dirigida por alguns dos principais intelectuais italianos, entre eles Umberto Eco. Com o tempo, uma personagem secundária, Valentina, acabou se destacando e se tornou a protagonista. A personagem era baseada na esposa do desenhista , Elisa Crepax e na atriz norte-americana Louise Brooks. Magra, sensual, destacava-se pelo corte Chanel, com cabelos curtos e franja.

Valentina estava sempre tendo sonhos eróticos, a maioria deles envolvendo lesbianismo e sadomasoquismo.
Depois do sucesso de Valentina, Crepax passou a fazer adaptações literárias e quadrinizou alguns dos mais importantes livros do SM, entre eles A vênus das peles (de Sacher Masoch, cujo nome deu origem ao masoquismo),  Justine (do Marquês de sade, cujo nome deu origem ao sadismo) e A história de O, de Pauline Reage, praticamente a criadora do BDSM literário.

Seja apanhando ou empunhando chicotes, suas mulheres eram sempre belíssimas. Suas heroínas eram sempre magras e sensuais, enquanto os homens pareciam sempre disformes e sem atributos.  Crepax era, de fato, um apaixonado por mulheres (e, provavelmente, pelo BDSM, já que esse elemento está espalhado por toda sua obra). (MestreSade)











A origem do Guaimbê



Crônicas do Mestre Sade

O guaimbê surgiu para suprir um enorme vácuo na prática das amarrações. Se você amarra alguém com o único objetivo de aprisionar alguém, é bondage. Se você amarra alguém seguindo as normas rígidas da tradição oriental, é shibari. Mas se você amarra alguéma apenas por prazer estético ou erótico, o que é? Não é nada. Como me disse um mestre shibarista, “a amarração pode estar linda, mas não tem valor nenhum se não cumpre o objetivo de aprisionar”.
E era o que me diziam quando viam minhas amarrações. “Isso não é bondage!”, “Isso não é shibari”. Mas o que eu fazia tinha que ter um nome. Foi assim que criei o Guaimbê. É uma provocação, mas é também uma forma de dizer: olha, este é o meu estilo, não venha impor suas regras.
Guaimbé é um cipó usado pelos índios para amarrar as coisas. Eu mudei o acento do “e”, para designar o estilo de amarração.
Mas é também uma referência à antropografia.
O movimento antropofágico, de Oswald de Andrade e Tarsila de Amaral, dizia que a grande característica da cultura brasileira era pegar o que vinha de fora e adaptar, criando algo novo. No manifesto antropofágico, Oswald de Andrade diz: “Só a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente. Tupi, or not tupi that is the question. Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos”. 
Oswald diz: “Contra todos os importadores de consciência enlatada”. Na época isso representava a necessidade de criar uma arte nacional, de parar de simplesmente imitar o que vinha de fora. O Guaimbê é também algo nesse sentido: Por que não criar um estilo nacional ao invés de simplesmente imitar fórmulas vindas de fora?
Assim, o Guaimbê surge como uma espécie de antropofagia: pega elementos do bondage, do shibari, do escotismo, do montanhismo, do macramé e cria algo novo. Surge também como algo vivo, em constante evolução, como uma técnica de amarração que privilegia a invenção, a criatividade, as cores, as experiências com as cordas.
Se outras técnicas de amarração são exclusivas, privilégio de alguns poucos eleitos, o Guaimbê é inclusivo.
Na época em que participava de grupos de Whatsapp, ficava impressionado com a maneira como os novatos eram tratados. Se algum novato se atrevia a publicar uma amarração própria, era rapidamente linchado com expressões como “lixo”, “Está tudo errado”, “Está uma merda”, “Você usou corda sintética, só idiotas usam corda sintética, as amarrações só podem ser feitas com juta!” e assim por diante.
Se em outras técnicas de amarração a postura com novatos é arrogante, no Guaimbê é de acolhimento. Exemplo disso foi o amigo Lord K. Quando participou de um encontro na praça organizado por mim ele não sabia fazer nem o mais simples nó. Depois daquelas primeiras lições, ele começou a praticar com sua modelo e evoluiu absurdamente, com amarrações belíssimas.
Essa é outra diferença do Guaimbê: eu não me importo de ser superado por um discípulo ou mesmo de aprender com ele. (MestreSade)

sexta-feira, 6 de julho de 2018

O Guaimbê de Lord K

Lord K é um dos expoentes amazônicos da arte das cordas. Seu trabalho mostra criatividade, coragem de tentar soluções diferenciadas e um belo uso da cor. Além disso, tem uma bela modelo. Apreciem as amarrações de Lord K.





terça-feira, 3 de julho de 2018

Guaimbê: amarrações em lilás e rosa

Apresento aqui alguma amarrações usando em conjunto as cores lilás e rosa. São cores próximas no disco de cores e por isso dão uma impressão de tom e sobretom.

A amarração acima é um embarê, o tipo que envolve o corpo inteiro. 
 Esta amarração é inspirada no hogited do bondage. O detalhe na perna é inspirado nos enfeites usados pelas índias amazônidas nessa região do corpo.


quarta-feira, 27 de junho de 2018

Quirofilia – fetiche pelas mãos


Crônicas do Mestre Sade

As mãos têm um forte significado no BDSM. É muito comum, por exemplo, o botton beijar as mãos do Top como sinal de respeito. Além disso, a mão do Top é a mão que segura a guia, conduzindo a submissa ou o submisso. No spank, a mão do Top é a mão que bate, a mão que dá a palmada (e muitos filmes têm destacado esse aspecto, a exemplo de Secretária). Nas amarrações, sejam elas bondage, shibari ou guaimbê, a mão do Top é a mão que amarra, que envolve o bottom com as cordas. Isso, claro, provoca um fascínio por essa parte do corpo. Já vi relatos de submissas que se dizem encantadas pelas mãos de seus donos.
Mas existem praticantes de BDSM que têm um verdadeiro fetiche por mãos. Esse fetiche existe e chama-se “Quirofilia”. A palavra vem do grego Quiro (Kheir - mãos), e philia (amor), ou seja, literalmente “amor por mãos”. Mas aqui não estamos falando da simples admiração, e sim de verdadeira atração sexual por mãos. Seria, portanto, um equivalente da podolatria, mas voltado para mãos.
Historicamente, é possível que traços da quirofilia já estivessem presentes nas estátuas gregas em razão de toda a atenção que os escultores davam para essa parte do corpo. Exemplo disso é Afrodite de Cnido, cujo a mão se encontra em frente do púbis, o que acaba associando essa parte do corpo ao estímulo erótico.
Adeptos homens de quirofilia tendem a se sentir atraídos por mãos delicadas, já mulheres, por mãos másculas, grandes, de dedos longos. Mas, claro, há para todos os gostos: homens gays podem prefererir mãos másculas enquanto submissos podem se sentir atraídos por mãos femininzas grandes, que demonstrem poder.
Uma leitora praticante de quirofilia diz define a mão perfeita da seguinte maneira: “Gosto dos dedos longos, com nós (articulações entre falanges) que se destacam levemente. Gosto de mãos cujos vasos e tendões são aparentes, mas não muito”.
Ela, aliás, descobriu muito nova que tinha atração sexual por essa parte do corpo. Seu primeiro orgasmo aconteceu em contato com as mãos de um professor de educação física. O professor segurou em sua cintura para ajudá-la a pular sobre um aparelho de ginástica. “Por instabilidade e medo, eu instintivamente me segurei nos punhos dele e eu não tinha percebido isso, quando eu percebi, ele estava olhando para mim, pois eu nunca havia tocado na mão dele nem para cumprimentá-lo, pois eu era tímida e as maos dele maravilhosas. Enfim, eu soltei rapidamente, tremendo. Os alunos acharam que era um ataque epilético, mas era um orgasmo, meu primeiro orgasmo”.
Outro orgasmo aconteceu com seu esposo e Top. Eles estavam na sala de cinema e ele acariciava seu rosto. “Eu segurei a mão dele com as minhas mãos e foi quando gozei. Ele ficou olhando para mim sorrindo sem entender, e se perguntou se era possível que eu estivesse tendo um orgasmo estimulado apenas pelo contato com suas mãos”.
Hoje ela vive uma relação BDSM com ele e o contato com a mão de seu dono é sempre usada como recompensa por bom comportamento. (MestreSade)

segunda-feira, 25 de junho de 2018

O shibari de Ito Seiu

Ito Seiu foi o grande nome das amarrações japonesas. Ele se apropriou da longa tradição do hojojutsu, modificando-a para fins eróticos e criou a tradição do shibari/kinbaku. Além disso, era poeta, fotógrafo, gravurista, pintor, um artista completo. Mostro aqui algumas de suas obras. Resta-nos apreciar seu estilo tendo a humildade de perceber que nunca chegaremos aos pés desse grande mestre.